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Serafina

À beira dos 80, Zé Celso faz filme e peças, por amor e para pagar contas

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Há quase um ano, Zé Celso começou a preparar uma encenação de "A Tempestade", considerado o texto de despedida de Shakespeare. Ele faria o poderoso Próspero, o bruxo soberano de uma ilha de espíritos e canibais. Avançou na montagem até ensaiar o final da peça, em que Próspero abandona a arte da magia e, pedindo aplausos, deixa a ilha e o palco. Zé desistiu ali mesmo do personagem e da montagem.

Perto de completar 80 anos, no dia 30 de março, ele quer é mais. Em parte para pagar as contas, está com a agenda de trabalho cheia. No dia marcado para receber a Serafina, chegou sozinho e apressado da sessão de RPG, pediu sanduíche e suco na lanchonete que fica em frente ao Oficina, debaixo do Minhocão, e almoçou diante do espelho, na maquiagem para as fotos.

"Você vai fazer 80. Não está nem aí?", foi a primeira pergunta. "Estou! Porque entrar nessa idade é uma responsabilidade", respondeu. "Mas não estou tendo tempo de encarar. Porque eu estou trabalhando tanto, cara. Nunca trabalhei tanto na vida. E, primeiramente: Fora Temer! Porque estou vivendo uma outra ditadura."

Assista

Zé está no meio das filmagens, como protagonista, da produção de estreia de Mathias Mangin, filho de sua amiga Betty Milan, escritora e psicanalista. Usa todo tempo livre para decorar os diálogos. Ao mesmo tempo, voltou a dirigir "Bacantes", de Eurípides, duas décadas depois, agora numa versão em que o antagonista do deus Dionísio, Penteu, é tratado como um golpista.

Curiosamente, o diretor identifica Penteu mais com o senador Aécio Neves. Zé foi veterano de Michel Temer na Faculdade de Direito da USP, no fim dos anos 1950, e tem dificuldade em atacá-lo. Ambos já haviam trocado elogios públicos. "O Temer, para mim, ele pode ser uma pessoa excelente, mas esse homem da mesóclise é um fantoche, é um banana, não faz bem para ele."

Acrescenta: "A única salvação do Temer é vir assistir 'Bacantes' e ser estraçalhado. Ver o que é ser um golpista. É um sujeito como a gente. Aquilo é uma coisa mecânica. Até pensei, mas será que vou dizer Fora Temer? Claro, porra. Não é bom nem para ele. Ele está numa situação ridícula". Na primeira versão, as bacantes estraçalhavam espectadores, que terminavam nus.

Um deles foi Caetano Veloso.

Nos intervalos esbaforidos entre o ator de cinema e o diretor de teatro, Zé corre para seminários, viagens, o que for, para conseguir fechar cada mês, aluguel inclusive. O dinheiro de patrocínio, para o teatro em geral e para as suas encenações com dezenas de atores e músicos, está secando. Uma exceção, anota ele, é o Itaú, que banca parte de "Bacantes", um musical com atores, coro e banda.

"A situação do teatro é a seguinte: Está todo mundo muito duro", descreve. "A coisa mais difícil é reunir o elenco e, sobretudo, os músicos. Todo mundo tem que fazer bico, eu inclusive. Estou tendo que me virar. E não estou muito... Eu vou fazer 80 anos. Sou cardíaco, então ao mesmo tempo tenho que andar no Ibirapuera."

Questionado sobre a saúde, ele, que sofreu um infarto há 22 anos, quando ensaiava "Mistérios Gozosos" (espetáculo baseado num poema dramático de Oswald de Andrade) garante que está muito bem. Lembra-se em seguida de que está devendo um exame pedido pelo médico. O tema saúde termina aí.

Apesar dos 80 anos, não recebe prioridade na sua agenda. Ele tem mais o que fazer.

AVESSO

O ex-presidente e ex-guerrilheiro uruguaio José Mujica, 81, já avisou, diz Zé. "As pessoas achavam que a revolução seria feita com coisas materiais, com metralhadoras. Agora, a única possibilidade é a revolução cultural. Mujica tem toda a razão. Eu estou vibrando. Estou muito inspirado. Você chega nesta idade e o seu DNA começa a reinterpretar tudo."

Ele descreve como revolucionários os atos promovidos no Oficina, nos meses anteriores ao impeachment. "Vinha gente da periferia. Tinha hip hop, funk, candomblé. [A professora de filosofia da USP] Marilena Chauí deu uma das melhores aulas dela, sobre cultura, com o teatro lotado, parecia a Revolução Francesa... Mas ela precisa incorporar o maior filósofo brasileiro, que é Oswald de Andrade."

No início do ano, o diretor estava animado com a perspectiva de remontar "O Rei da Vela", peça de Oswald, que seria patrocinada por um argentino.

O ator Renato Borghi, amigo desde os tempos de direito na São Francisco e que completará 80 anos exatamente no mesmo dia que ele, retomaria o papel de Abelardo 1º, o agiota, o capitalista sem limites.

Mas o investidor portenho, diante da crise, pisou no freio, estaria repensando. Espetáculo símbolo dos anos 1960 no Brasil, o tropicalista "O Rei da Vela" do Oficina ainda poderá ser retomado em 2017, ano do seu cinquentenário, mas o entusiasmo dos dois amigos e ex-amantes quase octogenários, diretor e ator, esfriou bastante.

UM XAMÃ

Em tempo: José Celso Martinez Corrêa, nascido em Araquara, formou-se advogado, mas nem prestou OAB. Já na faculdade criou o Oficina e partiu para espetáculos históricos, de "Pequenos Burgueses" (1963), "Roda Viva" (68) e "Gracias Señor" (72) a "Ham-let" (93) e os ciclos voltados a "Cacilda!" (a partir de 98) e "Os Sertões" (a partir de 2002). No intervalo, foi torturado, viveu no exílio e, ao voltar, lutou por uma década para reerguer o teatro.

Aqui e agora, para "Bacantes" e tudo mais que o move neste momento, Zé tem se identificado não com ismos políticos, mas com xamanismo. Durante a conversa com a Folha, que começou no teatro e terminou em seu apartamento no bairro do Paraíso, próximo ao parque Ibirapuera, ele foi buscar o livro que faz sua cabeça, "A Queda do Céu" (Companhia das Letras, 2015, 720 págs.).

Explica: "Eu viajei tanto na minha vida, de ácido, peiote, tudo, aí eu li o livro do [xamã] Davi Kopenawa e ele lembra todas as viagens dele, que ditou em ianomâmi para um etnólogo francês, Bruce Albert. E saquei, agora é que tive essa percepção, de que é como um ritual, como 'Bacantes': Quem passa sofre uma transformação. Vira do avesso a cultura".

Zé trouxe em seguida outro livro, "A Morta", do mesmo Oswald. "É a peça nova que eu gostaria de estar fazendo. E eu sei fazer, agora entendi tudo. Entendi a primeira parte, que era dificílima. Vai ser a mesma descoberta que foi 'O Rei da Vela'. Só não pude fazer agora porque o momento é dificílimo. Eu mesmo tenho que me virar, fazendo milhares de coisas."

Uma delas é o filme "As Mortes de Horácio", uma comédia dramática. "Mathias é um diretor jovem, formado em Nova York, muito conhecedor de cinema. Juntou uma equipe maravilhosa. Vou fazer um contrabandista que produz cigarros paraguaios, com rótulo internacional, e espalha pelo mundo. Meu capanga é o Marcelo Drummond. Eu me apaixono pelo meu capanga." O filme deve estrear em março.

POMAR

Apesar da correria, ou talvez por ela, Zé está exultante. "Eu estou muito feliz. Estou de uma riqueza, porque estou reconstruindo tudo, cara. E a maconha tem sido uma aliada extraordinária. Fumo há 50 anos, por prazer, mas atualmente, além do prazer, a maconha é uma coisa que me cura. Maconha com guaraná em pó, todos os dias", receita.

Ele dispara em pensamentos. Lembra os atos pelo impeachment, "aquela manifestação de Coreia do Norte, pessoas de verde-e-amarelo, fazendo selfie com a PM". Diz que "esse golpe é para os ricos, é um golpe do mercado", que "atinge a arte ao vivo, e o musical americano dominando, dominando, um palco colonizado, levando milhões de pequenos e grandes burgueses para os seus teatros, tudo em shopping".

O teatro de rua, o Oficina, resiste. "Este teatro tem um teto próprio. Aliás, não se deu importância a um prêmio maravilhoso que a gente recebeu do 'The Guardian'. Entre os dez melhores do mundo, inclusive Epidauro, este teatro foi considerado o melhor e o mais intenso. Este teatro é maravilhoso. Você se comunica com o povo, com os barulhos da rua, tem chuva, Lua, o cosmo todo."

E tem o conflito que o formou nestes 37 anos. Em 1979, recém-chegado do exílio, Zé tomou um ácido, foi até o final do espaço do Oficina, derrubou a parede e encontrou o estacionamento do grupo SS, que havia tomado o quarteirão e queria também o terreno do teatro. "Talvez a coisa mais fantástica seja a luta com o capital vídeo-financeiro, encarnado num outro artista, Silvio Santos. Uma coisa espetacular, cultural."

Depois de quatro décadas de enfrentamento, o diretor não quer mais ocupar o quarteirão com construção, nada de grandes coisas de cimento, teatro de estádio. Quer deixar tudo para Sampã - como ele chama a cidade, porque não gosta de são Paulo, o santo. "Tem que dar um espaço vazio, de respiração. Tem um pomar lindo, que dá frutos, flores, legumes, uma coisa estranha."

Lembra que uma de suas avós era indígena e afirma: "Hoje em dia, eu me sinto um xamã. Modéstia à parte. Eu me sinto um índio".

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